Pulemos toda a introdução já batida acerca dos debates suscitados pelo primeiro filme, do hedonismo da violência, da heroicização do policial reto, firme, militar. Entremos logo de cabeça no que é Tropa de Elite II.

O filme foi lançado há 4 dias, já foi assistido por 2 milhões de pessoas e as resenhas começam a pipocar na Internet. Da Carta Capital aos blogs de pessoas que considero inteligentes o diagnóstico é o mesmo: o filme é uma tentativa de resposta a toda comoção gerada pelo seu antecessor, mas não consegue se desprender das características – necessariamente ruins – que marcaram a inauguração do Capitão Nascimento no imaginário popular brasileiro.

Coloquemos as coisas em seu devido lugar: o narrador dos dois filmes é um personagem; o narrador dos dois filmes é o mesmo personagem. Me impressiona que isso passe tão desapercebido. E isso, por si só, já faz toda a diferença. Afinal de contas, o que ganhamos julgando um personagem? É certo que muitos dirão que o que está sendo julgado aqui não é o caveira, mas sim a repercussão social que sua aparição engendrou. Beleza. Mas então o problema não é com o Capitão Nascimento, com o Wagner Moura, com o José Padilha; é com o público. Eu mesmo não queria assistir ao filme na semana de sua estréia, pois com todo o peso que essa seqüência carrega nas costas era um fato que os cinemas estariam lotados de espécimes fascistóides gritando “Faca na caveira!!” a cada vez que os caveiras descarregassem toda a sua torrente de ódio contra os problemas que eles estão lá pra resolver. Mas com o advento da Internet, comprar o ingresso ficou mais fácil, sem filas. E a alternativa cinematográfica do sábado aqui no Ilha Plaza era Comer, rezar, amar, dormir, estudar, procrastinar, fazer porra nenhuma. Então decidi fazer o típico programa de casal assistindo a algo que talvez valesse à pena.

Fui ver o filme que eu queria ver, a despeito do público, que já na fila se comportava exatamente da maneira como eu esperava. 25 minutos depois de começar a sessão, finalmente começa a porra do filme. Sei lá quanto tempo durou, mas sei que ao mesmo tempo em que ficava preso à trama, não conseguia parar de pensar no mundo lá fora. Porque aquele filme se passava nas duas cidades em que eu vivo. A primeira cena se passava na Ampla, em Niterói, lugar pelo qual passo diariamente. E tinha até uma cena na Toca da Formiga, onde já matei minha larica de álcool do dia anterior. Não havia como não ser envolvido!

Pois bem. Posso não ter visto tantos filmes quanto meus amigos cults/inteligentes; e nem filmes com tanta qualidade quanto os que eles estão acostumados. Mas Tropa de Elite II é um filme que merece respeito. Merece ser encarado com mais seriedade do que tem sido até agora. Ele não é apenas a seqüência daquele bang-bang moderno, banhado de preconceito, que foi o primeiro – quer dizer, que dizem que foi, só pra deixar bem claro. Tropa de Elite II é uma narrativa que revela – em vez de desvelar – criticamente um problema que é tão simples quanto o seguinte: porquê as coisas são como elas são; porquê o mundo é ruim como ele é. E a única resposta que o filme dá é negativa; e guarda toda a sua potência: não é porque alguém quer que seja.

O filme trabalha com os estereótipos consagrados na temática da segurança pública, fazendo referência a pessoas reais. Isso torna o filme mais gostoso de ser assistido, rende umas boas risadas e alguma identificação. Mas não faria a menor diferença se os personagens fossem tão genéricos quanto a Itaipava da Caverna do Bin Laden. A narrativa não depende daqueles personagens específicos, mas apenas das figuras sociais que eles evocam. E isso se aplica, inclusive, ao famigerado, ao odiado, ao execrado Capitão (agora Coronel) Nascimento.

Parece que muita gente boa, muita gente da esquerda, continua tão impressionada com o Capitão Nascimento desde o primeiro filme que perde de vista o fato de que ele é um personagem em uma história de ficção. Galera, qual é a diferença entre os imbecis que idolatram o Capitão Nascimento e todos os que abominam a sua existência? A diferença de posicionamento se pauta numa semelhança de não-compreensão: ambos os lados se esqueceram de que o filme é um filme; de que o Cap. Nascimento não existe a não ser enquanto personagem – e agora ser da mitologia brasileira; de que a sala de cinema não é um tribunal e de que o Capitão Nascimento, justamente por não existir, está cagando e andando para as pessoas que estão se engalfinhando por conta dele. Vamos tirar o personagem do banco dos réus? Vamos sair desse ativismo paralisante em torno de uma questão tão simplesmente inútil? Foda-se se o Capitão Nascimento é bom ou mau. Isso só serve pra mostrar pra gente que nós sabemos que meia dúzia [de milhões] de imbecis são imbecis. E aí? Nada.

Voltemos ao filme, novamente. O Capitão ta lá, tranquilão, abalando, mandando ver em geral, comandando a porra toda. Até que dá uma meia dúzia de três merdas e o cara é retirado do comando do BOPE e jogam ele na subsecretaria de segurança. Daí ele pensa: “Agora sim eu estou num lugar onde posso enfrentar o sistema.”. Porra! Isso é muito foda! Isso não é demonstração apologética de uma ideologia de classe média que acredita que a política é o meio pra mudar as coisas, que o indivíduo bem intencionado, moralmente equilibrado vai conseguir extirpar a podridão alastrada pelas figuras imundas e devassas de nossa sociedade. Não é isso! Não é isso apenas porque não é isso de maneira apologética. Mas é isso. E não é?

Com o desenvolvimento da trama o tal Capitão vai percebendo que ele não é nada mais nada menos que uma peça no jogo. Que toda sua força de vontade, ascetismo, fodalhice não vai servir pra porra nenhuma. Mas o cara é teimoso. Ele é um cara muito bom. Ele é um cara que acredita que vai fazer a diferença. Ele é um cara que acha que as coisas poderiam ser diferentes (qualquer semelhança conosco, da esquerda, é mera coincidência, tá?). E ele não desiste nunca. Só toma porrada do “sistema” e sempre acha que conseguiu descobrir uma nova saída, um ponto fraco (calma, galera, não se identifiquem com o cara mau!! Lembrem do primeiro filme, hein!). E a trama continua se complexificando. Cada vez um novo ator entra na história e tudo se liga a tudo. E tudo foge do controle por mais que insista em apresentar pequenas alternativas que sempre são impedidas de se realizar.

Chega uma hora em que o Coronel se dá conta de que não tem jeito, parceiro. “O sistema é foda.”. Mais do que foda: “O sistema é um mecanismo impessoal que articula interesses escrotos.”

Para além das críticas que fizeram ao filme e que já citei aqui – de maneira rápida e pouco profunda, para condizer com o nível das mesmas – há uma outra que me deixou intrigado: está sendo dito por aí que o filme coloca a culpa de todas as merdas da qual fala no nosso sistema político, que é falido, corrupto. E que, em última instância, coloca a culpa no eleitor, na sociedade (porque rola uma panorâmica do Planalto Central, no final, com umas reflexões do Coronel Nascimento). Não consigo entender a origem dessa crítica a não ser pelo fantasma do Capitão Nascimento que ainda anda assombrando muito esquerdista por aí. Tem uma fala, nessa parte, que diz mais ou menos assim: “E você sabe de quem é a culpa?” e aí rola a tal panorâmica que acabei de citar. Porém, nessa mesma hora rola uma outra, não me lembro se logo antes ou logo depois, o que não faz a menor diferença: “Entra governante, sai governante e continua sempre a mesma merda.”. Esse aí é o pulo do gato do filme. O pulo do gato do final do filme. Tenho a impressão de que só eu entendi o filme. E mesmo pra mim isso é surpreendente. O filme, através do Nascimento, não deposita nenhuma esperança no indivíduo moralmente puro e intocável, nem em algum político específico, muito menos no nosso sistema político. E nem nós, marxistas, comunistas que somos, depositamos.

Uma das últimas falas, se não for a última, do Coronel Nascimento é: “Isso ainda vai demorar muito tempo pra mudar…”. O filme não imputa o protagonismo da mudança a ninguém. O filme não deposita esperança de mudança em porra nenhuma. E esse filme foi feito para milhões de pessoas que saíram do primeiro filme achando que tinha que invadir favela e passar geral. São milhões de pessoas assistindo a um filme cujo discurso é “não depende de nós, nem de ninguém”. E um discurso que essas milhões de pessoas respeitam pelo lugar de fala que ele ocupa. Se isso não é foda, não sei mais o que é.

A última: “o filme é paralisante, pois naturaliza a situação e diz que temos que continuar vivendo nossas, já que ninguém pode fazer nada pra mudar.”. Porra, aí vocês já estão querendo demais, né?! Quantos de vocês aí sabem derrubar o sistema? Quantos de vocês acordam todo dia, revigorados, pensando: “Porra, hoje estou afinzão de destruir o sistema!” ou ainda: “Caralho, esse dia tá com uma cara de Revolução!”. Se ninguém aí se sente impotente e paralisado diante da monstruosidade potencialmente infinita das determinações que regem as nossas vidas; se ninguém aí se sente do tamanho de um micróbio diante de um monstro que tende a tudo… meus parabéns. Vocês são foda. Ainda não fizeram porra nenhuma com toda essa potência e sabedoria. Mas podem dormir tranqüilos sabendo que são foda pra caralho.

Se além de tudo que o filme faz por uma visão crítica e reflexiva da realidade tivesse que dizer com todas as letras que a culpa é do capitalismo e durante os créditos ainda desse os passos para superar essa situação não seria Tropa de Elite II; seria aquilo que todos nós gostaríamos que fosse. E aí o filme seria uma merda. Não ia dar em lugar nenhum.

Trope de Elite II em uma palavra: necessário.