Canta, ó Musa, ó divina Érato
A ira de Afrodite contra o pobre menino Melo
Eu escrevo
Agora eu aprendi
A pôr sobre o papel
O que não posso mais sentir
Fui proibido, anulado, quebrado, reprimido
Passou pelo meu peito a seta do único amigo
Solidão inquebrantável
Finalmente estou comigo
Meu peito é inviolável
Então feriu-me pelo umbigo
Centro da alma, do corpo, sem abrigo
Vulnerável
Sagrado, inviável, jaz agora em perigo
A rocha de adamantium, granito e até massinha
Misteriosobviamente é agora um passarinho
Quero-quero
Quis-quis
Melo-melo
Infeliz
Canta, ó Musa, ó divina Clio
A história de um grou que caiu n’errado rio
Achei que escrevia
Nem disso sou capaz
O poeta de há pouco
Por agora aqui já jaz
A esperança qu’inda hoje de mim se apoderou acabou de esvair-se como a vida de um grou trespassado habilmente pela flecha de um infante que não sabe atirar ou ao menos ir adiante. Se a intenção se manifestou ao soltar aquela corda, não se sabe, nunca soube e tampouco é o que importa, pois guiada por Apolo, Paris ou Schumacher, desvairada ela se foi e levou o grou ao Hades. Lá chegando, o indefeso e pequenino encontrou com outro ser, fosse pássaro ou menino, se afogando bem sozinho o infantil passarinho que outrora fora rocha (destruída pela aposta que travou consigo mesmo antes de cair na bosta), dele se compadeceu. Pararam, se entreolharam, fitaram, nada falaram até que de estranho fato cada um se apercebeu: ele era o outro e o outro era o um, os dois ali estavam mortos e amor não tinham nenhum. Inda eram novos quando repentinamente, quase de forma demente, Afrodite os dizimou. Se foi porquê, ninguém nunca vai saber; foi falta de sacrifícios ou pra de ver morrer?
Canta, à Musa, o que era pra ser dito
Mas que nem se ao infinito
Eu tivesse voz pra isso
De dizer seria capaz
Sou eu que canto
Melo-Aquiles, Homelo, eu
Me sentindo Prometeu
Ainda cheio de espanto
Do que me aconteceu
Quero-quero
Quis-quis
E sempre quere-quererei
O que por menos de um triz
Destruí, divino rei
Na minha ira, meu orgulho de Pelida
Peço licença a Afrodite para a desrespeitar
Violarei, machucarei, aprisionei
Dentro da prisão de mim, minha coisa mais querida
Que pra sempre eu vou amar
Daqui eu sinto, com os meus oito sentidos
Apesar de não avistar
O que eu quero, objetivo
Que proibi a mim mesmo a graça de alcançar
Só escrevo, mal, por sinal
Fumando mais um cigarro e acelerando meu final
Ó Musa, maldita que é Erínia
Despertaste a minha ira
Mais uma vez
Aquele que há pouco amava
Agora com a alma ferida
Mais irado que o Pelida
Mataria a sua ex!
Que ódio!
Sentimento mais que puro
Pra eu voltar a ser duro
Me governo e seguro
Quando Ares me domina
Donzela moça, maldita Erínia, menina
Que infeliz é minha sina
Me recobraste a razão
Ao levar meu coração
O sentimento, qual dos dois, é passageiro
Mas não sairei inteiro
Desse maldito atoleiro
Melida, desiste
Alguma vez
Salva a ti e da outra a vida
Toma e sorve com vocês
Né jogo
É poesia
Mas ela também vicia
Estou viciado
Pois só ela me alivia
O peso do meu fardo